3 de julho de 2006

Refletindo com o sr. Nelson Iucif Jr.

autor: Elza Peixoto 4/3/2002 Acabei de ler a resposta do sr. Nelson Iucif Jr. ao sr. Manoel Paiva e constatei a necessidade de esclarecer alguns fatos que podem viabilizar outros olhares sobre a greve. Não posso deixar de assinalar que os servidores da Universidade foram punidos com a desorganização de suas vidas profissionais e pessoais por seis longos meses. Apenas quem viveu a greve, ou conviveu com os grevistas, é capaz de saber das noites de insônia, da depressão e da angústia pelas quais passamos. Agora, o que é mais interessante assinalar é que o lucro maior das conquistas advindas com a greve recai sobre a comunidade externa. Explico-me: é fato que a Universidade Estadual de Londrina, além da atividade de ensino cujo prejuízo o sr. mais assinalou, realiza atividades de pesquisa e extensão que têm suprido as deficiências do atendimento do Estado no âmbito das políticas sociais (Hospital Universitário, Atendimento Odontológico, Hospital Veterinário, entre outros). Ao deixar de financiar a Universidade Pública, ao pagar mal aos servidores desta instituição, o Governo do Estado, na pessoa do Gov. Jaime Lerner e do grupo político-econômico que representa, debilita serviços de que a comunidade londrinense depende, prejudicando-a. A greve dos servidores da UEL está brigando, em última instância, pela garantia da qualidade destes serviços. Exercitar um olhar mais amplo sobre a greve como instrumento de defesa dos direitos da população que utiliza os serviços oferecidos pela Universidade, foi o aprendizado maior que garantiu que não cedêssemos ao ver nossos pacientes, nossos alunos, nossa comunidade esperando em angústia a solução da nossa luta. Este fato fez a greve mais forte ainda, porque, apesar de todas as pressões, nós continuamos a resistir. Afirmo que mantermo-nos em greve por reajuste foi, em última instância, garantir a qualidade no atendimento que prestamos à comunidade. Quão melhor remunerados somos, melhor o grau da atenção que podemos dar aos que desfrutam dos serviços que prestamos. Gostaria que o sr. visse o brilho de esperança na face dos docentes, funcionários e alunos que, envolvidos com as ações desenvolvidas na greve, acreditaram, finalmente, na possibilidade de reverter os danos ocorridos em suas vidas pessoais e acadêmicas. Nos últimos 10 anos, observaram sucessivos governos retirarem verbas da educação pública e gratuita, sucatearem seus locais de trabalho e tornarem mais precária sua condição de vida sem nada poderem fazer. Não houve abuso do direito de greve. Esta era a nossa única alternativa diante do firme propósito do governo de não reconhecer nossa situação. Houve, sim, abuso de poder do governo Lerner ao descumprir a Constituição em diversos itens, não dando aos trabalhadores dos diversos setores públicos a reposição salarial a que estes setores têm direito. Os cidadãos habituam-se a esconder-se em suas vidas privadas, e não percebem o quanto os serviços públicos estão ficando precários. As polícias estão atuando em precárias condições de trabalho... O HU desde junho de 2001 indicava na imprensa local as dificuldades de funcionamento advindas da superlotação em função da reforma da Santa Casa. A população padece com estas e tantas outras debilidades do serviço público de que necessitam. Infelizmente, para que os cidadãos sejam acordados e reivindiquem seus direitos de atendimento de qualidade nos serviços públicos, é necessário que os servidores públicos cheguem ao extremo de entrar em greve (sendo confundidos com vagabundos oportunistas, vendo seus salários cortados e necessitando implorar alimentos na porta dos estádios e igrejas para garantir o sustento dos mais atingidos pelo corte de salários). Ao cobrar por permanecermos em greve apesar de continuarmos recebendo, o sr. faz o jogo do governo, que desejava nos desqualificar e ver-nos recuar voltando ao trabalho sem avanço, desistindo de reivindicar nossos direitos e de lutar pelos direitos da população. Não entramos em greve para receber de volta nossos salários, mas para receber a reposição de perdas advindas da inflação no período de 6 anos. A falta desta reposição debilita nossas condições de vida e a qualidade do serviço que prestamos à comunidade. Nós prestamos o serviço do ensino público e gratuito à comunidade londrinense e brasileira. Os funcionários do HU prestam o serviço de saúde gratuita aos membros da comunidade londrinense e à região. Nenhum membro da comunidade se pergunta, no dia a dia, como está a condição de trabalho e de vida destes servidores. Com a greve, nós estávamos gritando, sr. Nelson Iucif, e demorou muito para que a comunidade nos ouvisse. Estar atentos é um dever dos cidadãos. Não apenas quando o calo aperta, mas quando há aparente tranquilidade. Os vulcões fervem sempre e estouram de quando em vez, quando não suportam a lava. O conjunto dos servidores públicos do Paraná e do Brasil está ebulindo nas entranhas do cotidiano, suportando a política de desmonte implantada pelo Estado. Se não quisermos nos deparar com o caos, temos de começar, agora, a cobrar do Estado a obrigação de manutenção dos serviços e dos servidores públicos, pois estes setores prestam sim serviços fundamentais à população sem nunca serem vistos ou ouvidos, e muitas vezes, sendo mal tratados profissionalmente. Elza Peixoto é docente do Departamento de Ginástica, Recreação e Dança do Centro de Educação Física e Desportos Obs.: Este artigo foi originalmente publicado no Jornal Notícia Digital da Universidade Estadual de Londrina

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